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Os gondoleiros de Veneza

A gôndola é  um dos maiores símbolos de Veneza. A profissão de gondoleiro tem uma  tradição muito antiga e é uma típica profissão da cidade,  ligada à própria conformação territorial.  Dentre as principais atrações da cidade está o cobiçado passeio de gôndola.
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Mais do que o percurso, muito do sucesso do programa está exatamente nas mãos dos gondoleiros, que podem fazer desse passeio uma maravilhosa experiência. Ou não. Tive sorte nas vezes em que andei de gôndola  pois os condutores foram discretos,  solícitos e eram bem humorados (era esse o  perfil que estávamos buscando).  Mas nem sempre acontece dessa forma.  Em nossa última visita à Veneza pedimos informações a um gondoleiro que estava com a gôndola estacionada. Queríamos  saber sobre o trajeto mas ele tinha tanta má vontade em responder e foi tão grosseiro que desistimos de embarcar. Esperamos e pegamos outra gôndola. Ah, sim, prepare-se pois existem gondoleiros indiscretos, sem paciência e sem educação.  Já vi algumas cenas de gondoleiros bufando, fingindo não escutar as perguntas dos clientes e se recusando a continuar o percurso que os turistas insistiam em dizer que havia sido encerrado antes do tempo combinado.

História dos gondoleiros

O gondoleiro recebe este nome para que se distinguir dos que guiam outros tipos de embarcações. A gôndola era o meio de transporte mais utilizado pelo nobres, que tinham os seus gondoleiros, ou seja, os condutores. Os gondoleiros herdavam da família uma licença, que era passada de pai pra filho.  Ou então podiam adquiri-la praticando um longo treinamento  como substituto de algum antigo gondoleiro que não tinha filhos  homens ou então quando os filhos não eram interessados na profissão. Se o gondoleiro não tivesse filho homem podia passar a sua licença para um aprendiz.

Em caso de morte de um  gondoleiro a licença voltava para o comune (prefeitura) que podia passar ao primeiro pretendente da lista.  O trabalho para os substitutos era duro, pois ganhavam pouco  e repassavam grande parte do que recebiam às viúvas dos gondoleiros pelo aluguel da gôndola.

Hoje em dia os aspirantes à profissão precisam frequentar uma escola  e se submeter a um exame.  Dentre os requisitos, ter mais de 18 anos, frequentar cursos onde estudam um idioma estrangeiro, ter noções de história e arte,  além de provas para mostrar habilidade e controle de remo. É necessário fazer um estágio com um gondoleiro profissional e por fim, se submeter à uma prova prática.

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Os gondoleiros são personalidades que usam camisetas de listras brancas com preto ou vermelho. São conhecidos por sua personalidade forte e são orgulhosos defensores da “Sereníssima”

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Existem cerca de 450 gôndolas na Lagoa de Veneza. O tempo de construção é de cerca um ano e o valor é em torno de 60 mil euros, dependendo das características da embarcação

 

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As gôndolas ficam estacionadas em todos os cantos da cidade. Se tiver possibilidade, antes do passeio, converse um pouco com o gondoleiro. Muitas vezes, em 3 minutos de bate-papo  você consegue identificar o perfil do profissional: brincalhão e extroverso ou mais calado e discreto

 

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Oo gondoleiros precisam ser hábeis para passar sob as pontes, principalmente no período de maré cheia.

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Os gondoleiros podem atuar privadamente, decidindo os seus pontos de circulação, ou então são contratados por agências que oferecem um trabalho com salário fixo

 

 

Primeira mulher gondoleira – Depois de uma supremacia masculina que durou mais de 900 anos, finalmente  em 2010  a  primeira mulher conseguiu superar os exames para se tornar gondoleira.  Filha de um gondoleiro e mãe de 2 filhos, Giorgia Boscolo entra para história como a primeira mulher a conduzir uma gôndola em Veneza.

Em meu passeio pelo sestiere de Cannaregio conheci outra mulher, Chiara Curto, que conduz o sândalo, embarcação muito parecida com a gôndola, só que é mais curta e compacta.

 

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Chiara Curto, em seu sândalo, embarcação parecida com a gôndola

 

Entrevista

Entrevistei o gondoleiro Sebastiano Bosetti,  que nasceu em Veneza  e trabalha há  9 anos nesta profissão. Sebastiano trabalha na zona de Rialto. Ele conta sobre a sua escolha e sua formação para exercer essa atividade:

 
1 – Por que escolheu esta atividade?
Escolhi porque nasci inserido nessa arte, meu pai é gondoleiro. Pra mim não è trabalho, mas uma paixão.
2 –  Por quanto tempo estudou e quais são as matérias do curso?
Estudei no liceo scientifico da minha cidade e as matérias ensinadas no curso “A arte da gôndola e do gondoleiro”  são várias, como,  idioma,  toponomástica,  direito da navegação e  História da Arte.
 
3-  Conte-nos um pouco sobre os gondoleiros de antigamente.
Aprendi muito com os velhos gondoleiros mas uma frase ficou gravada e exprime muito de como penso: “Ruba co l’ocio ma anca co e recie”, que significa  “rouba com o olho mas também com os ouvidos”. Comumente se poderia dizer “Aonde não sabe, faz silêncio e aprende com o que vê e com o que sente”. Pra mim, ter tido a honra de escutar anedotas e histórias de velhos gondoleiros me enriqueceu e  ensinou muito. Alguns antigos gondoleiros que tive o prazer de conhecer e conviver foram fundamentais para a minha formação.  Poderia citar alguns como Sergio Soppelsa, o Lello Manifesto, Alessandro Sandrone, historico gondoleiro, Silvano e Paolo, gondoleiros de Santa Maria del Giglio e  muitos outros, que me encantaram com as histórias desde que eu era pequeno e que me ensinaram esta maravilhosa arte, que deve nascer dentro e não pode ser inventada.
4- Como são pre-estabelecidos os locais de trabalho?
Somos divididos com locais prè-estabelecidos de acordo com um rodízio que é realizado.

Você já fez este passeio? Como foi a sua experiência? Não deixem de conferir o post vale a pena andar de gôndola em Veneza.

 

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About

A minha paixão pela comunicação e pelo turismo é herança dos meus pais. Adoro viajar para observar e vivenciar as diversidades culturais. Depois que me formei em Jornalismo, passei longa temporada em Londres, um curto período nos Estados Unidos e atualmente vivo em Florença, com meu marido e nossos dois filhos. Desde 2005 sou retail na Ermenegildo Zegna. Busco sempre ver o lado positivo em todas as coisas e prefiro ter por perto aqueles que, como eu, dão mais valor às pessoas do que às coisas materiais.


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