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A street art de Clet

Quanta coragem uma pessoa precisa ter para entrar no museu Uffizi – sem que os seguranças percebam – com o próprio auto-retrato debaixo do braço e pendurá-lo na parede de uma de suas salas? Pois o artista contemporâneo Clet Abraham o fez. Ele me contou que há cerca de 5 anos entrou na Galleria Uffizi e colocou a sua pintura na parede, que no momento estava vazia depois que uma obra de Bronzino havia sido retirada para exposição em outro local. Antes de ir embora ele ainda tirou uma foto para registrar a brincadeira, que só foi percebida no dia seguinte. Assim é Clet: um provocador. Ele quis chamar a atenção para os artistas que vivem e trabalham em Firenze.
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O pintor e escultor Clet Abraham é francês e vive na Itália desde 1990.  Depois da graduação em Belas Artes na França,  escolheu Roma para atuar como restaurador de móveis mas descobriu na street art a sua paixão.  Há 10 anos vive em Firenze, onde montou seu studio numa esquina do bairro de San Niccolò, nas redondezas do Piazzale Michelangelo.
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As simpáticas intervenções nos sinais de trânsito

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Clet é conhecido em toda a Europa por modificar os cartazes estradais aplicando adesivos cheios de humor nas placas. Mas que fique claro: sempre respeitando o real sentido das placas e sem colocar em risco a segurança das estradas. A placa preferida é a vermelha com um traço branco na parte central, que significa sentido proibido.
Suas obras estão espalhadas em diversas cidades européias e também nos Estados Unidos, por enquanto em Nova York. Já tem planos de modificar alguns cartazes no Canadá, pois em setembro estará visitando seu irmão em Quebec, e informa que vai levar pra lá também o seu trabalho. Ainda não esteve no Brasil mas disse que tem muita vontade.
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Seu objetivo maior é provocar. Tenta transformar os cartazes em mais humanos em mensagens de liberdade e anti-conformismo

 

Os adesivos são fixados geralmente nos finais de semana, depois que deixa os restaurantes, lá pelas 11, meia-noite ou 1 da manhã. Num gesto que dura poucos minutos, ele usa a sua bicicleta para conseguir alcançar as placas e voilà… mais um cartaz modificado, sempre sob o olhar cúmplice da namorada, a japonesa Mami Urakawa. Inclusive ela foi presa ano passado em Osaka pois no Japão é crime ter um relacionamento com um artista de rua. Mami também foi acusada de ter ajudado Clet a alterar mais de 80 cartazes no Japão, onde estavam passando temporada. Clet retornou à Italia mas sua namorada passou 4 meses na cadeia.
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Nem mesmo aqui na Itália o trabalho de Clet é completamente aceito e o artista coleciona diversas multas por violação de bens públicos.  Mas há esperança para que as coisas melhorem. Há poucos dias Clet encontrou-se com o prefeito de Firenze Dario Nardella e parece que finalmente fizeram as pazes. Sobre conseguir livrar-se de todas as multas que acumula é ainda um capítulo a parte, mas ao menos o prefeito admitiu que a sua arte não é vandalismo. Curiosamente, 2 prefeituras contrataram seu trabalho e ele tornou mais simpáticas e coloridas as placas das localidades de Calenzano e Dicomano,  que pertencem à província de Firenze.

Estive em seu atelier semana passada para saber um pouco mais sobre a sua ousada atividade:

 

1- Desde quando você conseguiu o direito de fazer as intervenções nos cartazes sem problemas? Quero dizer, desde quando seu trabalho foi aceito pelas autoridades?
Na verdade não aceitam totalmente o meu trabalho. A prefeitura sim, mas a polícia não. Mas as pessoas adoram e me dão muito apoio, apesar de existirem algumas forças que são contrarias: a justiça e a polícia. As forças obscuras que estão por trás da SAS (Società alla Strada) não aceitam de jeito nenhum. Eles não apenas tiram os adesivos, mas retiram os cartazes com os adesivos e os substituem. Eu ja pedi o meu trabalho de volta mas eles não devolvem. E isso acaba tendo um custo alto pra eles, pois recolocam um cartaz novo.
2 – Mas os policiais passam diariamente em frente às placas com seu trabalho e não o retiram.
Há 2 semanas enquanto eu estava perto da Ponte Vecchio e estava colocando o adesivo o policial pediu que eu não alterasse o cartaz. Eu não obedeci e continuei meu trabalho. Acabo de passar lá e vi que o cartaz continua no mesmo lugar.

3 – Qual a mensagem que quer transmitir através da sua arte?
É uma mensagem multipla. Primeiro que a lei não é religião, não deve ser uma imposição. Eu sou contra todo tipo de imposição. A lei é sempre atrasada. A lei devia ser um ponto de referência e não uma coisa imposta. A partir do momento que precisamos obedecer perdemos a nossa capacidade intelectual.

4-Como surgiu o convite para fazer uma intervençao em um dos mais importantes predios de Siena, em plena Piazza Maggiore?
Siena estava concorrendo para ser a capital da cultura e me convidaram para fazer um trabalho no Palazzo . Ficou cerca de 1 mês.

5- Eu acho o fiorentino um pouco tradicionalista e imagino que resista um pouco em aceitar a sua arte. É desse jeito? Qual a idade média dos seus maoires admiradores?
O fiorentino é muuuito tradicionalista. A faixa etária que mais aprecia o meu trabalho é de pessoas entre 25 e 35 anos. Mas o que me deixa muito feliz é ver o nonno que traz o netinho aqui para admirar o meu trabalho. É uma grande satisfação quando percebo que a minha arte agrada a gerações diferentes.

 

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Os cartões-postais e os adesivos são vendidos em seu atelier por 1 euro

Clet também adquire cartazes estradais diretamente das empresas que os produzem e utiliza os mesmos motivos das intervenções que faz nas placas de rua. Obviamente essa é uma atividade regularizada. Portanto, você também pode ter em sua casa ou studio uma obra assinada pelo artista.

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Esta loja que fica na via della Spada vende alguns dos trabalhos do artista. As placas estão em torno de 5 mil reais

Alguém já tinha reparado essas intervenções em alguma cidade européia ou em Nova York?



About

A minha paixão pela comunicação e pelo turismo é herança dos meus pais. Adoro viajar para observar e vivenciar as diversidades culturais. Depois que me formei em Jornalismo, passei longa temporada em Londres, um curto período nos Estados Unidos e atualmente vivo em Florença, com meu marido e nossos dois filhos. Desde 2005 sou retail na Ermenegildo Zegna. Busco sempre ver o lado positivo em todas as coisas e prefiro ter por perto aqueles que, como eu, dão mais valor às pessoas do que às coisas materiais.


'A street art de Clet' have 5 comments

  1. 2 de abril de 2016 @ 23:03 Katia Holanda

    Amei a matéria , já estava curiosa para saber o porque dessas placas kkkkk estamos planejando ir a Itália esse ano então vou procurar essas placas e te mandar a foto kkkk obrigada 🙏☺️

    Reply

    • 3 de abril de 2016 @ 23:27 Denya Pandolfi

      Ei Katia, fechado. Vou aguardar a tua foto com a placa de Clet 😉
      Bjs e boa semana, D

      Reply

  2. 3 de abril de 2016 @ 15:20 ILMA MADUREIRA

    Gosto bastante dessas intervençoes artisticas.
    Gostei de saber de quem sao, algumas que vi em Firenze.
    Obrigada pelo esclarecimento.

    Reply

    • 3 de abril de 2016 @ 23:24 Denya Pandolfi

      Oi Ilma, Eu gosto muito do traço do Clet. O centro de Firenze é completamente tomado pela sua arte.. acho que alegra a cidade!
      Fico feliz que tenhas gostado de saber.
      Beijo grande e obrigada pela mensagem! Denya

      Reply

  3. 7 de maio de 2016 @ 17:29 Grazie a te / Arte de rua em Firenze

    […] os trabalhos de Clet Abraham, um pintor e escultor francês que vive em Firenze desde 1990 e é um dos mais famosos artistas […]

    Reply


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